Minha vida de consumo imediato!

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O celular nos desperta. Aciono o soneca para poder dormir mais dez minutos, que são os dez minutos mais gostosos do mundo. Novamente o celular toca. É hora de levantar e correr para o trabalho. Horas depois, é hora de correr para o almoço e rapidamente voltar para o trabalho. Em seguida, corro para a faculdade ou para buscar os filhos na casa da avó. Depois, corro para comprar uma nova televisão, porque a minha está pequena e ultrapassada e corro também para comprar um novo celular, mais repleto de tecnologias e mais veloz.

A sociedade moderna vive dessa maneira, a mil por hora, procurando algo que nem sabemos ao certo o que é. Consumimos produtos e tecnologias que também entram em nossa vida de uma maneira exageradamente acelerada e rapidamente os descartamos alegando que eles não nos servem mais por uma qualquer razão que criamos com muita facilidade. O consumo é algo imediato, centralizado no prazer e na necessidade de ter, tão presente no tempo em que vivemos. Até mesmo as palavras que usamos em nosso dia a dia nos denunciam: não tenho tempo, não tenho dinheiro, não tenho saúde, não tenho carro, não tenho amor. Esse comportamento dá margem para que acreditemos que vivemos centrados no consumo: tenho que ter aquele carro, aquela roupa, aquele eletrodoméstico, aquele celular. O que temos é uma espécie de espelho do que nós somos.

E para termos, temos que produzir. Por isso, corremos para o trabalho para produzirmos e sermos eficientes, realizando um máximo de atribuições em um mínimo de tempo possível. Fazemos isso para que sejamos valorizados e tenhamos dinheiro para consumir rápido com o que ganhamos a produzir rápido.

Desse modo, nos educamos e educamos nossos filhos com os verbos ter e fazer, sem que exista praticamente nenhum espaço de reflexão. Somos educados desde muito jovens a estudar e ter boas notas, pois dessa maneira temos condições de entrar em uma boa faculdade. Com uma boa formação acadêmica, temos condições de conseguir uma boa oportunidade de emprego. Em um bom trabalho, temos a capacidade de produzir muito, pois dessa maneira temos condições de dar aos nossos filhos uma boa educação. E o ciclo se repete.

A questão é que em tempos de crise, tal como o que estamos vivendo, tempos estes que são dolorosos para a maioria das pessoas, precisamos refletir sobre algo: esse modelo de consumo não pode continuar sendo sustentado. Por quê? Se nos centramos e nos definimos enquanto pessoas e enquanto grupo de acordo com o capital que produzimos, o que nós somos sem dinheiro? Quem eu sou sem as coisas que consumo? O que eu posso fazer senão correr para produzir algo para ter condições de consumir? O que eu faço agora?

A cada dia, esse tipo de questionamento se torna mais comum em consultórios de psicologia. Os sistemas familiar e conjugal, sistemas ricos da transformação humana, têm sofrido mudanças intensas. Em uma sociedade focada no consumo e no prazer imediato, a noção de mudança não é encarada de uma maneira positiva. Na vida a dois, a correria também é frenética, já que desejamos ter agora, de modo a nos satisfazermos. As relações devem ser fáceis, leves e devem nos preencher. Estas não têm que ser difíceis e trazer sofrimentos, do mesmo modo que não comprar o veículo que desejávamos não deve trazer frustração. As relações podem ser fáceis, desde que não compreendamos que fácil significa sem conflitos, sem ajustes, sem mudanças, sem esforços. A habilidade de mudar mantendo o que nos é essencial é uma das maiores ferramentas para a felicidade a dois. Somente com o esforço podemos nos construir, seja individual ou coletivamente, para que não criemos uma dependência do que temos, mas sim do que somos. Fazemos parte de diversos espaços que satisfazem a nossa necessidade de pertencer a algo maior: casamento, família, amigos, a sociedade. São estes espaços que nos permitem compreendermo-nos e amarmo-nos, possibilitando a construção de uma relação sólida com nós mesmos e é isso que permite que recebamos e forneçamos amor aos outros, construindo relações felizes e favoráveis para nós mesmos e para as pessoas que amamos.

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